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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

14 de dezembro



Ela dizia gostar de observar as coisas, mas para todos os outros ela não prestava atenção em nada.

Bem, ela admirava o que era do seu agrado, não o que era preciso. Por isso, talvez, fosse tão desastrada e desatenta. Mas ninguém, fora umas poucas crianças de hoje, via o mesmo que ela. A beleza de algumas flores desabrochando, dois enamorados andando de mãos dadas e sorrindo, alguém cantando na rua. A beleza de amigos brincando na chuva ou o céu de manhã, tardezinha e a noite. A forma das nuvens, e o brilho de cada estrela. Ela também fazia pedidos a estrelas cadentes, mesmo certa de que com tantas pessoas e tantos pedidos, ela dificilmente seria atendida.

Um dia, quando admirava o céu ela viu um guarda chuva gigante. Era feito de nuvens, e seu cabo era cinza, quase preto. Quis ir até onde ele estava, mas estava no carro, de carona. E estava muito longe de casa para voltar sozinha.

Tentou chamar as pessoas que estavam com ela, e chegou a apontar para o lugar onde ficava o guarda chuva, mas ninguém viu e zombaram da menina.

Ela sorriu, era dito por todos que não prestava atenção em nada, mas na verdade eles que prestavam atenção em coisas insignificantes. E ela tinha certeza de que era um guarda chuva gigante.


Alguém mais, em outro lugar, o teria visto também?



Pamela.

Hora de dormir


- Era uma vez um menino e uma menina. Eles estavam juntos há algum tempo, mesmo com amigos de ambos contra, e eram felizes. Mas tinham defeitos que o outro não aceitava bem. E, por isso, brigavam muito. E, com as brigas, acabaram se distanciando e coisas antes minúsculas agora os enojavam. O menino não a suportava mais, ela deitava na mesa em público, saía sem dar explicações e queria que ele entendesse, fechava a cara por nada e chorava com o vento. Estavam cansados. Ele estava cansado, e então um dia, no meio de outra briga, terminou. Viu sua menina pela primeira vez não chorar – ela tentava manter as lágrimas nos olhos, para não demonstrar seu sofrimento e fraqueza – e virar as costas para um adeus certo. Ao vê-la ir embora, se arrependeu e a quis de volta. Ela segurava o celular na esperança de receber uma ligação. Dele. Mas nada aconteceu. Os dois se amavam, desejavam, e ao perceber isso tudo que os enojavam pareceu nada. Bobagens. Ele foi atrás, ela já havia sumido. Então deixaram que a brisa gélida da noite levasse todo o amor e saudade.

- E o que aconteceu depois?

- Como assim? É só isso. Acabou.

- Nãããããããããão! Cadê o final feliz? O viveram felizes para sempre?

- Não tem final feliz, Sophie!

- Toda história tem um final feliz!

- (...)

- Por favor, termine a história... Por favor...

- Os dois se amavam, desejavam, e ao perceber isso tudo que os enojavam pareceu nada. Bobagens. Ele foi atrás e a encontrou sentada, olhando para o nada. Sentou-se a seu lado e segurou sua mão, gordinha, gelada. – Desculpe! – Ambos disseram. Sorrisos. Foram para casa.

- (...)

- Durma bem, meu amor.


Pamela.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

10 de dezembro



Todo dia sou pressionada, não me querem com ele. Sempre, por mais cansada, arrumo as coisas, mas só ouço que está tudo mal feito, feio. Não ligo para nada, eles pensam. E eu vou morrendo, encolhendo aos poucos, e desejo sumir. Todo dia, sei que vão ser as mesmas coisas, mas não consigo ignorar e sofro. E quero cada vez mais ir embora.


Alguém me leva daqui?





Pamela.